Taate
Taate foi um levita do clã de Coate e descendente de Corá, cujo nome aparece nas genealogias dos levitas em 1 Crônicas (1 Crônicas 6:24, 37). Ele está na linhagem que leva ao profeta Samuel e a Hemã, o cantor que Davi colocou à frente da música na casa do Senhor.
A Bíblia fala muito pouco sobre ele. Ele aparece só como um nome em duas listas, sem palavras, ações ou datas registradas, e tudo o que vai além disso é conjectura. Mesmo assim, seu lugar na genealogia tem sentido, porque liga Corá, o rebelde do deserto, a um profeta que ungiu reis e a uma família de músicos cujos cânticos estão preservados nos Salmos.
Este artigo apresenta com honestidade o que se pode saber sobre Taate, aponta as dificuldades que as listas levantam e mostra o que seu lugar modesto nas Escrituras pode nos ensinar hoje.
1. Etimologia e significado do nome
O nome hebraico Tachat (תַּחַת) é idêntico a uma palavra hebraica muito comum que significa “embaixo”, “sob” ou “em lugar de”. Não se sabe como essa palavra passou a ser usada como nome próprio nem que sentido os pais quiseram dar a ela. Alguns sugeriram significados como “humilde” ou “substituto”, mas são conjecturas, não significados estabelecidos.
Seria imprudente construir uma lição espiritual sobre a ideia de substituição, como se o nome apontasse para o sacrifício de Cristo. O texto não faz essa ligação, e uma leitura sadia não atribui a um nome mais do que as Escrituras dizem sobre ele. O mesmo nome foi usado por outras pessoas e até por um lugar no Antigo Testamento, o que mostra que não era raro. Por isso é preciso distinguir o levita dos seus homônimos.
2. Contexto histórico e narrativa bíblica
2.1 Origem familiar e genealogia
Taate pertencia à tribo de Levi por meio de Coate, o segundo filho de Levi (Êxodo 6:16). O clã coatita foi aquele de onde vieram Moisés e Arão (Êxodo 6:18-20), e incluía também Corá, filho de Izar (Êxodo 6:21), o homem que liderou a rebelião contra Moisés e Arão no deserto (Números 16). Os filhos de Corá foram Assir, Elcana e Abiasafe (Êxodo 6:24).
1 Crônicas traz a linhagem de Taate duas vezes. A primeira lista desce de Coate por Corá, Assir, Elcana, Ebiasafe e Assir até Taate, e continua com seu filho Uriel, depois Uzias e Saul (1 Crônicas 6:22-24). A segunda lista faz o caminho inverso, de Hemã até Levi, e ali Taate aparece como filho de Assir, filho de Ebiasafe, filho de Corá, e como pai de Sofonias (1 Crônicas 6:36-37). No texto hebraico esses versículos são numerados 6:9 e 6:22.
As duas listas concordam que o pai dele foi Assir e que ele descendia de Corá por meio de Ebiasafe. Divergem em dois pontos. A primeira lista cita Aminadabe como filho de Coate onde a segunda traz Izar, e cita Uriel como filho de Taate onde a segunda traz Sofonias. Alguns intérpretes propõem que Aminadabe era outro nome de Izar e que Uriel e Sofonias seriam a mesma pessoa com dois nomes, ou dois filhos, cada lista seguindo um ramo diferente. Nenhuma das explicações pode ser provada, e o melhor é reconhecer que a Bíblia não resolve a questão.
2.2 Principais eventos
Nenhum acontecimento da vida de Taate foi registrado. Não sabemos onde viveu, o que fez nem exatamente quando viveu. Contando as gerações das listas, ele ficaria em algum ponto entre o período do deserto e o tempo dos juízes, mas as genealogias antigas às vezes pulam gerações, então qualquer data é só uma estimativa.
O que sabemos é o serviço para o qual seu clã foi chamado. Os coatitas eram responsáveis pelas coisas santíssimas do tabernáculo: a arca, a mesa, o candelabro, os altares e os utensílios do santuário (Números 3:27-31). Quando o arraial partia, eles carregavam esses objetos nos ombros, depois que os sacerdotes os cobriam, e não deviam tocar nas coisas santas para não morrer (Números 4:1-20). Como coatita, Taate pertencia a uma família separada para esse serviço reverente.
Sua linhagem também carrega a memória da rebelião de Corá. Corá e seus seguidores foram julgados por Deus (Números 16:31-35), mas as Escrituras acrescentam que os filhos de Corá não morreram (Números 26:11). Taate descende desses sobreviventes. Gerações depois, sua linhagem produziu Elcana, pai de Samuel (1 Samuel 1:1, 19-20), e depois Joel, filho de Samuel, e Hemã, filho de Joel (1 Crônicas 6:33). 1 Samuel descreve Elcana como homem da região montanhosa de Efraim, e Crônicas mostra que a família era de origem levítica; isso combina com o fato de os levitas terem recebido cidades no território de Efraim (Josué 21:20-22).
3. Caráter e papel na narrativa bíblica
As Escrituras não descrevem o caráter de Taate. Não há palavra de elogio ou de censura, nem ação, nem oração. Um estudo fiel precisa dizer isso com clareza e resistir à tentação de preencher a lacuna com imaginação.
Seu papel é o de um elo numa corrente. Na genealogia de Hemã, o cronista traça a ascendência do principal cantor dos coatitas por muitas gerações até Levi e até o próprio Israel (1 Crônicas 6:33-38). Cada nome dessa corrente, inclusive o de Taate, confirma que os músicos nomeados por Davi eram levitas legítimos, descendentes da família que Deus separou para o seu serviço.
4. Significado teológico
4.1 Graça depois do juízo
A linhagem em que Taate está é um testemunho silencioso da misericórdia de Deus. O nome de Corá ficou ligado a uma das rebeliões mais graves do deserto, e ainda assim dos seus descendentes vieram Samuel, o profeta que conduziu Israel ao arrependimento e ungiu seus primeiros reis, e Hemã, que serviu na adoração diante da arca. Os títulos de vários salmos estão ligados aos filhos de Corá (Salmos 42; 44-49; 84-85; 87-88). Taate é uma das gerações pelas quais essa história de graça passou.
4.2 Adoração que passa de geração em geração
Os coatitas começaram carregando as coisas santas pelo deserto. Quando Davi trouxe a arca para Jerusalém, nomeou homens das famílias levíticas para servir com cânticos diante do tabernáculo até que Salomão edificasse o templo (1 Crônicas 6:31-32). Hemã estava à frente dos cantores coatitas, com Asafe à sua direita e Etã à sua esquerda (1 Crônicas 6:33, 39, 44), e seus filhos também serviram na música da casa de Deus (1 Crônicas 25:1, 4-6). Por meio de nomes como Taate, Crônicas mostra que a adoração é transmitida de uma geração à outra.
4.3 Por que as genealogias importam
Crônicas foi escrito para a comunidade que voltou do exílio, e suas listas lembravam àquele povo que ele estava ligado à história das promessas de Deus e ao culto legítimo. O serviço levítico, fiel como era, também apontava para além de si, para um sacerdócio melhor. A carta aos Hebreus mostra que os sacerdotes levíticos eram muitos porque a morte os impedia de continuar, mas Cristo tem um sacerdócio permanente e vive sempre para interceder pelo seu povo (Hebreus 7:23-25).
5. Legado e referências canônicas
Taate, o levita, é mencionado apenas em 1 Crônicas 6:24, como filho de Assir e pai de Uriel na linhagem de Coate, e em 1 Crônicas 6:37, como filho de Assir e pai de Sofonias na genealogia do cantor Hemã (6:9 e 6:22 na numeração hebraica). Nenhuma outra passagem fala dele, e este artigo procurou não acrescentar nada ao que esses versículos dizem.
Não o confunda com o Taate da tribo de Efraim, citado entre os descendentes de Efraim em 1 Crônicas 7:20, versículo que na verdade menciona dois homens com esse nome. Também não deve ser confundido com Taate, um dos lugares onde Israel acampou na peregrinação pelo deserto (Números 33:26-27).
6. Aplicação para hoje
Taate nos lembra que a maioria dos servos de Deus é conhecida por ele, e não pela história. Sua vida não deixou uma história registrada, mas fez parte de uma família pela qual Deus levantou um profeta e um líder da adoração. A fidelidade na vida comum, na transmissão da fé e no serviço em lugares escondidos nunca é desperdiçada nas mãos de Deus.
Sua linhagem também traz esperança a quem carrega uma história familiar dolorosa. Taate descendia de Corá, cujo nome lembrava rebelião, e mesmo assim seus descendentes serviram na presença de Deus com cânticos de louvor. Nenhuma herança de pecado é mais forte do que a graça de Deus, que pode transformar uma história de juízo numa história de adoração.
Por fim, Taate nos convida a ler a Bíblia com honestidade e humildade. Onde as Escrituras se calam, não devemos inventar. Onde apresentam dificuldades, podemos dizê-lo com clareza e ainda confiar no Deus que fala por meio delas. As genealogias lembram que Deus é fiel através das gerações e que, em Cristo, fazemos parte de um povo chamado a adorá-lo.